
Bom dia, Dropper!
Pensei no chuveiro: que recuperar uma carteira de bitcoin bloqueada exigiria um hacker, ferramentas de força bruta e talvez um milagre. Mas depois de uma década sofrendo, um investidor tirou fotos de cadernos velhos da escola, contou pro Claude como costumava criar senhas e foi conversando até encontrar o arquivo de backup certo - com 3,5 trilhões de combinações testadas no caminho - para recuperar 5 BTCs.
No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:
• XP: R$ 1,5 trilhão sob custódia, take rate minguando
• Trump: 3.700 trades em 90 dias
• Marisa: EBITDA cresce, dívida também
• Magnificent 7 contra as Munificent 7

GIRO PELO MERCADO

Por aqui, a semana começou bem amarga com dados econômicos colocando pressão no Ibovespa. O vilão do dia foi o Focus: apontou alta na inflação pela 10a semana seguida (para 4,92%) e agora a expectativa para a Selic é de 13,25% (contra 13% da previsão anterior). Como desgraça pouca é bobagem, a prévia do PIB de março veio pior que o esperado, com queda de 0,7% - reforçando que a economia real já sente o aperto dos juros altos.
Lá fora, o fim de semana não foi nada tranquilo. Trump publicou que o Irã "deve agir rapidamente ou não sobrará nada deles" depois de uma ligação com Netanyahu. O petróleo abriu disparando, com o Brent chegando a US$ 112 antes de recuar para US$ 108. Mais tarde, a Casa Branca anunciou a suspensão de um ataque que estava previsto para amanhã - após pedido de aliados no Oriente Médio. A semana ainda promete com resultados da Nvidia na quarta, e Walmart na quinta, dando pistas sobre como o consumidor americano está aguentando o aumento dos preços.
XP: R$ 1,5 trilhão sob custódia, take rate minguando
lucro cresce 7% com modelo começando a ser testado

Por anos a XP foi a grande disruptiva do mercado financeiro brasileiro. Cobrava menos, distribuía mais, e roubava clientes dos bancões em ritmo industrial. Nesse trimestre, apesar de um resultado sólido, mostrou que o modelo que trouxe a empresa até aqui está sendo testado.
Os números do trimestre:
🟢 Lucro Líquido Ajustado: R$ 1,318 bilhão, crescimento de 7% anual.
🔴 Take Rate de Varejo: 1,18% anualizado, queda de 7 bps.
🔴 Captação Líquida Total: R$ 14 bilhões, queda de 39% no ano e 55% na base trimestral.
O lucro cresceu 7%... a receita cresceu 8%.. então as margens ficaram praticamente estáveis. Se você parar aqui, o resultado até parece bom. O problema fica no que está embaixo dos números.
De um lado, a renda fixa: a receita caiu 25% em relação ao mesmo período do ano passado. De R$ 1,015 bilhão para R$ 756 milhões. Ou seja, em um ano a linha encolheu 25%.
Do outro, a renda variável: com maior volatilidade nos mercados, cresceu 23% nas negociações diárias. As receitas de ações e futuros subiram 22% no ano.
A linha "Outros" (float, novas verticais, produtos em desenvolvimento) cresceu 43% e se tornou a maior linha individual do varejo, com R$ 834 milhões. O problema é que a XP não detalha o que está dentro desse número. Para uma empresa listada na Nasdaq gerindo R$ 1,5 trilhão de clientes, essa falta de transparência começa a incomodar analistas.
O que o mercado vai olhar:
Take rate: dois trimestres seguidos de queda e já estamos em 1,18%. Se o 2T26 confirmar a tendência, a tese de que a XP consegue monetizar a base crescente de ativos começa a ser questionada de forma mais séria. O mercado vai se perguntar onde é o piso.
Captação líquida total: o número caiu de R$ 32 bi no 4T’25 para R$ 14 bi no 1T’26. A captação de varejo ficou estável em R$ 19 bi, mas a saída institucional puxou o consolidado para baixo.
Alocação de recursos: a XP está hipercapitalizada (Basileia de 20,7%, acima do guidance de 16-19%), o que matematicamente deprime o ROAE. Anunciou R$ 1 bi em recompras e R$ 500 mi em dividendos. Se executar tudo em 2026, o lucro por ação cresce mesmo sem crescimento de lucro líquido.
A XP tem R$ 1,5 trilhão sob custódia, 4,8 milhões de clientes ativos e um Banco de Atacado que virou motor de crescimento. A plataforma é real, a escala é real. O que ainda não está resolvido é como transformar tudo isso em retornos crescentes para o acionista.
DECIFRANDO O CONDADO

Take Rate
é a fatia que uma plataforma de investimento ou corretora fica de cada transação ou operação realizada pelo cliente. Basicamente, o percentual da receita total que vira lucro para a casa.
Quanto maior o take rate, mais a empresa consegue capturar de valor sem necessariamente aumentar o volume de operações; quanto menor, mais depende de escala para compensar.
Um take rate saudável significa margem boa e poder de precificação, enquanto um take rate espremido pode indicar competição feroz ou dificuldade de monetizar a base.
Trump: 3.700 trades em 90 dias
presidente, regulador e day trader ao mesmo tempo

Num trimestre qualquer, um gestor profissional pode fazer dezenas de trades. Um fundo quantitativo agressivo pode fazer alguns milhares. Donald Trump fez 3.700 (+40 por dia) enquanto governava o país mais poderoso do mundo - e muitas envolvendo ações de empresas que têm negócios diretos com seu governo.
Os documentos, protocolados no Escritório de Ética Governamental dos EUA em mais de 100 páginas, listam compras e vendas em faixas amplas, o que dificulta calcular o valor exato das posições.
Empresas compradas: Nvidia, Oracle, Microsoft, Boeing e Costco, além de eBay, Uber, AT&T e Dollar Tree.
Intel: teve seis operações (a mesma Intel cujo governo Trump fechou um acordo para adquirir uma participação de 10% por quase US$ 9 bilhões.)
O que os críticos alegam: Trump interage regularmente com os executivos das empresas em que negocia. Quer exemplos? O CEO da Nvidia foi junto com ele pra Pequim… e também rolaram ações de Netflix e Paramount enquanto as duas disputavam a Warner - uma batalha com implicações antitruste que dependeriam do governo federal para serem resolvidas.
O que os defensores alegam: a Casa Branca recusa o enquadramento do conflito de interesse. O porta-voz David Ingle afirmou que Trump "age sempre no melhor interesse do público americano". A Trump Organization alega que tudo é gerido de forma independente por instituições terceirizadas e com processos automatizados.
Detalhe histórico: nenhum presidente recente negociou ações enquanto estava no cargo. Obama e Biden tinham o dinheiro em títulos do Tesouro e fundos diversificados. George Bush e Clinton usaram blind trusts (estruturas onde um gestor independente controla os ativos sem que o dono saiba o que está sendo comprado ou vendido).
MACRO/AÇÕES
Geopolítica: Xi Jinping alerta Trump que Taiwan pode colocar em risco as relações entre EUA e China.
Fed: o fim da era Powell.
Dólar: pode enfraquecer, mas não tem substituto como reserva global, diz CIO da XP.
Inflação americana: sobe acima do crescimento dos salários.
Dívida: do governo avança para 80,1% do PIB em março, maior nível desde 2021.
Cosan: prejuízo cai 11%, para R$ 1,6 bilhão no 1T’26.
Honda: tem primeiro prejuízo em quase 70 anos, pressionada por custos de carros elétricos.
Nubank: bate o consenso em receita, mas fica abaixo no lucro. México chega ao breakeven.
Itaúsa: e GIC lideram aporte de US$ 1 bilhão na Aegea.
Elo: contrata Bank of America, UBS BB e Bradesco para IPO nos EUA.
Brookfield: investe US$ 2 bi na SpaceX antes do IPO.
Berkshire Hathaway: volta às compras e aumenta aposta em Alphabet.
Marisa: EBITDA recorrente cresceu 60%
mas a dívida cresce mais rápido que o resultado

Sabe aquela cena clássica de filme de ação, com o herói desarmando uma bomba enquanto a contagem regressiva vai acabando? Esse foi o trimestre das Lojas Marisa.
Os números do trimestre:
🟢 EBITDA Recorrente : R$ 20,4 milhões, crescimento de 60,6% no ano.
🔴 Resultado Líquido: -R$ 95,8 milhões, revertendo lucro do ano passado.
🔴 Caixa: R$ 10,6 milhões, o menor nível em anos, caindo 78% em apenas três meses.
Armadilha estatística do trimestre: no 1T de 2025 a Marisa reconheceu uma montanha de créditos tributários não recorrentes, que inflaram o EBITDA, as receitas financeiras e o resultado do ano. Quando você compara com essa base, quase tudo parece catastrófico.
O que está funcionando: EBITDA recorrente subiu 60,6% no ano; a margem bruta de produto avançou 0,2 p.p.; as despesas gerais e administrativas caíram 17,2%; o churn de clientes recuou 50%; o NPS subiu 20 p.p.; o digital avançou 22%…
O problema: a Marisa gera R$ 20 milhões de EBITDA por trimestre enquanto paga R$ 114 milhões de despesas financeiras no mesmo período. Com a Selic nos patamares atuais e uma dívida que chegou a R$ 376 milhões, os juros consomem tudo o que a operação consegue gerar - e ainda sobra prejuízo.
O que o mercado vai olhar:
Caixa: se o próximo trimestre repetir o ritmo de queima de caixa, a empresa entra no 3T’26 sem reservas operacionais relevantes. Qualquer refinanciamento nesse cenário vira negociação sob pressão… e assim as condições são piores.
O EBITDA: apesar da alta, com uma alta despesa financeira ele tem que multiplicar algumas vezes.
Rebranding: aposta de longo prazo num momento de curto prazo escasso. A empresa contratou empresa especializada para redesenhar a marca. O mercado vai querer ver o cronograma e o impacto esperado em vendas antes de dar crédito a essa iniciativa.
Pra piorar, o auditor independente incluiu um parágrafo de ênfase questionando a continuidade operacional da empresa. Não foi uma preocupação rotineira, foi um alerta formal… o equivalente contábil de um médico pedindo exames urgentes.
O setor de moda para o público de renda média-baixa nunca foi fácil… concorrência de fast fashion, pressão de marketplace e consumidor sensível a juros altos. A questão agora é se a empresa consegue apresentar um plano crível antes que a pressão de liquidez vire uma crise sem saída.
→ A Marisa já passou por uma reestruturação financeira em 2023, quando renegociou dívidas e fechou lojas. O alerta de continuidade operacional em 2026 sugere que a recuperação não veio na velocidade necessária.
STATS DO DIA
54-45
Foram os votos que confirmaram Kevin Warsh para o comando do Banco Central Americano. Foi a votação mais apertada que um chefe do Fed já teve.
Magnificent 7 vs. Munificent 7
quem realmente lucra com a IA?

Se a narrativa do mercado nos últimos anos foi dominada pela “Magnificent 7”, talvez esteja na hora de conhecer uma versão bem menos glamourosa (mas potencialmente mais lucrativa): a “Munificent 7”.
A tese é simples: a revolução da IA não roda só com código… ela roda com energia, metais, água e infraestrutura pesada. Dos US$ 820 bilhões em capex do setor em 2026, quase metade vai direto para commodities… ou seja: existe uma conta pesada de cobre, eletricidade, concreto e água.
É daí que vem o argumento de Jeff Currie (ex-Goldman e hoje no Carlyle): as big techs estão, na prática, “short” em commodities. Elas precisam desesperadamente desses insumos para crescer, mas o capital do mercado continua fluindo majoritariamente para… as próprias techs.
Pra ele, a Magnificent 7 é uma enorme posição vendida em moléculas, enquanto as empresas de energia são quem vendem essas moléculas. Entra em cena, então, as empresas que efetivamente produzem a energia e os insumos que tornam a IA possível: ExxonMobil, Chevron, ConocoPhillips, Shell, TotalEnergies, BP e Equinor.
Curiosidade: enquanto as techs negociam com yields de fluxo de caixa na casa de 1,5%, as empresas de energia estão mais perto de 15%. Em outras palavras, o mercado está pagando caro por quem consome recursos… e barato por quem fornece.
Esse desequilíbrio fica ainda mais gritante porque acontece justamente num momento em que a oferta de commodities está cada vez mais apertada. Tensões geopolíticas, gargalos logísticos, restrições de exportação e um mundo mais fragmentado tornam tudo mais escasso… e mais valioso.
→ Energia e materiais representam apenas 6% do S&P 500, enquanto tecnologia e comunicação já passam de 40%. Se parte desse capital começar a migrar, estamos falando de trilhões de dólares procurando um novo destino.
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