
Bom dia, Dropper!
Pensei no chuveiro: que na teoria um BC existe para ser independente do governo, isolado de pressão política justamente para tomar decisões impopulares quando necessário. Já na prática, Trump empossou o novo chairman do Fed numa cerimônia na Casa Branca com tapete vermelho e elogios efusivos… tudo isso depois de escolher um cara com expectativa não-tão-implícita de cortar juros. O problema é que a economia americana segue com inflação em alta e o mercado já precifica chance de aumento de juros. Warsh vai ter que escolher entre agradar o chefe ou fazer o trabalho. Geralmente essas duas coisas não combinam.
No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:
• Zoom: nem morta, nem voando… lucrativa
• Mills: vendida por R$ 3,8 bilhões
• Copasa: R$ 13 bilhões em jogo
• Tarifaço: US$ 166 bilhões na fila do reembolso

GIRO PELO MERCADO

Por aqui, já são seis semanas seguidas sem happy hour na Faria Lima por causa do Ibovespa fechando em queda. O que deu um alívio é que ontem o índice subiu quase 1% com o avanço das negociações entre EUA e Irã - enquanto mercados internacionais ficaram fechados. E o que tirou esse alívio foi o boletim Focus, que trouxe a 11ª semana seguida de alta na projeção de inflação para 2026, chegando a 4,92%.
Lá fora, não teve pregão na segunda, mas hoje ele volta com força. E junto vêm os dados do PCE de abril, o indicador de inflação favorito do Fed e que certamente vai ser usado no debate sobre mexer ou não nos juros dos EUA. O petróleo Brent operou em queda leve, ainda digerindo os sinais de reabertura do Estreito de Hormuz.
Zoom: nem morta, nem voando… lucrativa
quando "não morreu" já é uma boa notícia

No meio do caos da Covid-19, o Zoom trouxe uma versão mais interativa e robusta do Google Meet e cresceu astronomicamente. Aí veio a vacina, o return-to-office e muita gente já preparou a extrema unção do app. Pois bem, voando ele não está, mas resultado do trimestre mostrou que a narrativa do obituário foi um pouco precipitada.
Os números do trimestre:
🟢 Receita total: US$ 1,24 bilhão, crescimento de 5,5% a/a, acima do teto do guidance.
🟢 Lucro operacional: US$ 310,5 milhões, crescendo 28,5% no ano.
🔴 Lucro por ação: US$ 1,42 x US$ 1,46 esperados
A divisão Enterprise foi o coração do resultado: o número de clientes que pagam mais de US$ 100 mil por ano chegou a 4.534, crescimento de 8,2% na base anual.
Mas o Online (clientes que compram pelo site, sem consultor) ainda é a pedra no sapato. O churn piorou levemente, e o segmento cresceu só 2,8%.
Os dois números vão reforçando cada vez mais que o caminho mais saudável é ter menos dependência de usuários avulsos e mais foco em contratos corporativos de longo prazo.
Para o futuro, IA (claro): o My Notes, funcionalidade de notas automáticas, chegou a 1,5 milhão de usuários licenciados em apenas quatro meses.
Nos cofres, a empresa está asfixiada no dinheiro: US$ 7,7 bilhões em caixa e títulos. Free cash flow de US$ 500 milhões no trimestre. Com isso, o board autorizou mais US$ 1 bilhão em recompra de ações, além dos US$ 625 milhões que já estavam no programa.
O que o mercado vai olhar:
Monetização de IA: o crescimento de 184% no AI Companion é bonito, mas ainda não move receita de forma material. O mercado vai querer ver em quanto tempo isso se traduz em ARPU maior para clientes Enterprise.
Churn Online: subir de 2,8% para 3,0% ao mês não é catastrófico, mas essa tendência precisa parar. Se o 2T’26 mostrar nova piora, o segmento Online vira uma âncora pesada nos resultados
Guidance: para o ano inteiro, a projeção é de receita entre US$ 5,08-5,09 bilhões, crescimento de só 4%. Será que a empresa está conservadora de propósito ou a aceleração deste trimestre não se sustenta?
O resultado da Zoom não é de empresa moribunda nem de empresa em expansão agressiva. É de uma empresa lucrativa, gerando caixa de forma consistente e mais uma apostando que IA vai reacender o motor de crescimento.
A ação subiu +9,19% ontem, somando +26,79% nesse ano. A empresa hoje tem um valor de mercado de US$ 31 bilhões, uma fração dos US$ 160 bilhões que chegou a valer no seu auge na pandemia.
Recomendação dos analistas:
Compra: 10 | Neutro: 8 | Venda: 1
Preço-alvo médio: US$ 107,79 | Preço atual: US$ 105,64
MACRO/AÇÕES
Consultoria: IA acelera cortes nas grandes empresas de consultorias e bancos.
Bancos: ganho bruto com crédito tem maior nível desde 2013.
Empresas: incertezas freiam resultados das companhias abertas brasileiras no 1T’26.
Oura: fabricante de anéis inteligentes protocola pedido confidencial de IPO.
BOVA11: supera R$ 1 bi por dia e vira um dos ativos mais negociados da Bolsa em 2026.
Raízen: negocia conversão de dívida e credores ficarão com quase 80% da empresa.
LVMH: venda da Marc Jacobs inaugura era da ‘liquidação de luxo'.
BRB: depósitos judiciais de R$ 30 bilhões preocupam o governo.
JBS: entra em lista prévia do Russell 3000 e amplia expectativa por chegada ao S&P 500.
Copasa: R$ 13 bilhões em jogo
envelopes do leilão já estão na mesa

O Tribunal de Contas de Minas Gerais deu o sinal verde para a privatização da Copasa. No papel, o mercado já vem precificando a privatização, inclusive com a ação liderando os ganhos no ano entre os papéis do Ibovespa. A expectativa é de que a oferta vencedora fique acima dos R$ 13 bilhões, mas os envelopes só serão abertos na quarta-feira.
Os candidatos que começam a mostrar as cartas:
Consórcio Itaúsa/GIC/Equipav: cada uma banca um terço do capital necessário. A Aegea, empresa de saneamento na qual as três são acionistas, entra com uma fatia menor só para não comprometer o próprio balanço.
Equatorial: entraria na disputa mesmo com a desistência da Sabesp, empresa que é sócia desde a privatização. A Sabesp desistiu para focar nos seus investimentos em São Paulo.
Onde especialistas convergem: Copasa não é uma operação onde ganha quem oferece o maior cheque. São 830 municípios, metas agressivas de universalização até 2033 e uma relação com centenas de stakeholders que nenhum operador vai gerenciar sem fricção.
O processo agora tem duas rodadas: 1) os consórcios disputam os 30% do estado como sócio estratégico, que vão ser divulgados na quarta; 2) o bookbuilding, vai de quinta (28) até segunda (1), com outros 15% oferecidos ao mercado.
Se o preço que o mercado topar pagar for maior do que o valor oferecido pelo candidato a controlador, a figura do sócio de referência é simplesmente descartada. Aí o Estado sai inteiramente do capital e a Copasa vira uma corporation: empresa sem controle definido, como aconteceu com grandes nomes da bolsa brasileira.
Com valor de mercado de R$ 20,2 bilhões e ação acumulando 113% em 12 meses, a Copasa já tem outra precificação. Quem ganhar o leilão vai precisar de muito mais que capital: vai precisar de paciência, governança e capacidade de entregar resultado num dos estados mais complexos do país para operar saneamento.
DECIFRANDO O CONDADO

Bookbuilding
é o processo usado para descobrir o preço "justo" de uma ação antes de uma oferta pública (IPO ou follow-on).
Durante o período de bookbuilding, os coordenadores da oferta captam intenções de compra de investidores institucionais em diferentes faixas de preço, montando um "livro de demanda" que revela o apetite real do mercado.
Com base nesse termômetro, a empresa e os bancos definem o preço final da ação dentro de uma faixa previamente estabelecida.
Quanto maior a demanda no bookbuilding, mais forte tende a ser a precificação.
Mills: vendida por R$ 3,8 bilhões
mais uma empresa que deixa a bolsa

A Mills (maior empresa de locação de máquinas e equipamentos do Brasil) foi vendida para o Grupo Loxam (maior empresa de locação da Europa e 5° maior do mundo). Ou seja: a gigante que consolidou JM Empilhadeiras (R$ 279 milhões) e Next Rental (R$ 180 milhões) nos últimos dois anos acaba de ser consolidada.
→ Valor da compra: R$ 3,8 bilhões.
→ Valor por ação: R$ 16 para os majoritários.
→ Prêmio: 22% e maior valuation desde 2014.
A negociação durou seis meses e, surpreendentemente, não teve nenhum vazamento na mídia. A estratégia da compra é clara: os dois portfólios se encaixam sem se sobrepor:
Mills domina plataformas elevatórias, equipamentos pesados e soluções de intralogística, escoramento e forma.
Loxam atua no Brasil com equipamentos compactos, torres de iluminação e geração temporária de energia.
Juntos, formam um player completo no mercado de locação brasileiro, sem canibalizar receita um do outro.
A tese operacional faz sentido. O timing também: a Mills chega à transação em boa forma, com:
Receita bruta: R$ 502 milhões (+10,7% a/a).
Lucro líquido: R$ 197 milhões - quase o triplo do mesmo período do ano passado.
Alavancagem: 1,1x dívida/EBITDA, queda de 0,3x no trimestre.
Com a aquisição do bloco de controle, a Loxam é obrigada a lançar uma OPA para os minoritários nas mesmas condições, R$ 16 por ação. A transação ainda precisa do aval do CADE, e só depois disso a empresa vai definir quem fica no comando da Mills.
→ A ação sobe 24% nos últimos 12 meses. Com a OPA obrigatória, quem ainda está no papel recebe o mesmo prêmio dos controladores, com o pagamento sendo feito integralmente à vista no fechamento.
STATS DO DIA
71%
do crescimento dos lucros das empresas do S&P500 são ligadas a IA. Hoje, 44 empresas do ecossistema de IA concentra 45% de toda a capitalização do S&P500.
Tarifas: US$ 166 bi a recuperar
A fila do reembolso que ninguém quer liderar

Se o mercado em 2026 é definido por EUA x Irã. No ano passado, isso girava em torno do tarifaço de Trump, que esfriou relações comerciais ao redor do mundo e tirou bilhões em impostos dos caixas de algumas grandes empresas. Mas agora a Suprema Corte dos EUA decretou: o Tarifaço é ilegal.
→ O tamanho da decisão: empresas americanas podem pedir US$ 166 bilhões de volta.
→ O problema: o presidente chama de antipatriota quem pede o dinheiro de volta.
→ A consequência: um risco crescente de ações coletivas de consumidores.
→ Até agora: só 5% das 3 mil maiores empresas de capital aberto mencionaram o tema em comentários recentes ou arquivamentos regulatórios.
O que as empresas que já se manifestaram falam:
Apple: Tim
Cook confirmou que a empresa está "seguindo os processos estabelecidos" e pretende "reinvestir qualquer valor recebido em inovação e manufatura nos EUA."GM: elevou o guidance anual para refletir cerca de US$ 500 milhões em devoluções previstas.
Ford: resultado acima do esperado foi puxado por uma reivindicação de US$ 1,3 bilhão em reembolso… o que fez as ações caírem quando os analistas perceberam.
Walmart: busca reembolso por mercadorias estimadas em "menos de 0,5% das vendas anuais nos EUA”.
Home Depot: já recebeu os primeiros reembolsos e projeta "compensações significativas."
Algumas (Nike, Lululemon e Amazon) já enfrentam ações coletivas de consumidores alegando terem direito a parte do reembolso por terem pago preços inflados durante a vigência das tarifas. Se as tarifas eram ilegais… os preços cobrados com base nelas também eram indevidos.
Trump sempre defendeu que são os países exportadores que pagam as tarifas e não as empresas americanas. Mas os estudos mostram o contrário, e agora as próprias empresas estão na Justiça comprovando que pagaram. Pedir o reembolso é, na prática, contradizer publicamente a narrativa do presidente.
Para o consumidor americano, que ainda convive com gasolina e alimentos mais caros, o benefício deve ser indireto e modesto - com esses reembolsos compensando os custos crescentes de energia e frete.
DROP LIKE IT'S HOT
[para ler] o recado de Pequim ao agro brasileiro: a festa pode estar acabando
[para entender] a história do por trás do “sell in may and go away”.
[para assistir] como o Brasil virou uma potência em energia solar.
[para culpar] a culpa pela estranha morte dos dividendos é da IA.

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