Bom dia, Dropper!

Pensei no chuveiro: que bancos de investimento prometem políticas rígidas de hospitalidade corporativa, tudo para evitar conflitos de interesse e proteger a própria reputação. Mas até o JP Morgan passa por perrengues por fugir do roteiro. O banco demitiu um diretor por causa de uma bandeja de sanduíches do Super Bowl, e acabou condenado em US$ 4,25 milhões numa arbitragem depois que a decisão mostrou que a demissão foi orquestrada para redistribuir a carteira de clientes dele para outros brokers da firma.

No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:

• Salesforce: um trimestre de recordes
• CSD BR: a 2a bolsa mais perto
• HP: resultados sem CEO
• Brasil: as empresas no 1T’26

Dropped pelos humanos Igor Chede Collaço e Renan Hamann
GIRO PELO MERCADO

Por aqui, o clima de festa de meses atrás deve voltar só com a Copa, porque os resultados na bolsa não estão animando. Mesmo depois de esboçar uma reação, o Ibovespa está tendo seu pior mês desde 2022 e já acumula 6,18% de queda (agora com 175.744 pontos). A Petrobras caiu arrastada pelo petróleo em forte baixa, e os bancos não foram suficientes para compensar. Pra piorar, o IPCA-15 do mês deu um direto no queixo das expectativas: veio mais alto que o esperado e colocou ainda mais pressão num mercado que já estava sensível.

Lá fora, Wall Street operou com cautela mas fechou no positivo: Dow Jones +0,36% e Nasdaq +0,07%. O BCE alertou para riscos crescentes à economia global, enquanto os juros imobiliários nos EUA subiram para o maior nível em meses - o que gerou ruído mas não foi suficiente para virar o humor. O petróleo Brent caiu mais de 5%, chegando perto de US$ 95, com Trump sinalizando estar nos "estágios finais" das negociações com o Irã.

Salesforce: um trimestre de recordes

Às vezes a boca do CEO assina cheques que a empresa não consegue pagar. Mas esse não é o caso da Salesforce, que conseguiu US$ 1,2 bilhão em ARR no trimestre depois de o Marc Benioff prometer que o Agentforce seria "a maior oportunidade da história da empresa".

Os números do trimestre:

  • 🟢 Receita Total: US$ 11,1 bilhões, alta de 13% no ano e recorde histórico da empresa.

  • 🟢 Lucro por ação: US$ 3,88 x US$ 3,13 esperados

A história do trimestre tem dois protagonistas.

  • O primeiro é o Agentforce: 3,8 bilhões de tarefas executadas por agentes de IA, 28,6 trilhões de tokens processados no acumulado, e mais de 50% dos novos contratos vindos de clientes que já estavam na base - o que significa menos dependência de novos contratos.

  • O segundo é mais polêmico: um programa de recompra acelerada de ações de US$ 25 bilhões, financiado com emissão de dívida. A Salesforce captou US$ 24,8 bilhões no trimestre e a dívida de longo prazo saltou de US$ 10,4 bilhões para US$ 39,3 bilhões.

Aos olhos da empresa, é uma aposta calculada: Benioff e a CFO Robin Washington dizem, em linguagem de balanço, que o fluxo de caixa futuro da empresa vale mais do que o mercado precificou. O FCF do trimestre foi de US$ 6,6 bilhões… se esse ritmo se mantiver, a dívida nova vai ter cobertura. O perigo mora no "se"…

O que o mercado vai olhar

  1. Crescimento do Agentforce: o core da empresa (Sales, Service, Slack) cresceu apenas 7% em moeda constante. Para o valuation premium se sustentar, esse número precisa acelerar

  2. NRR dos contratos Agentforce: quantos clientes expandem o uso após o primeiro contrato? Esse número não foi divulgado no release. É o dado que vai determinar se o ARR de US$ 1,2 bilhão é piso ou teto de curto prazo.

  3. Custo da dívida nova x FCF: a empresa prometeu crescimento do FCF, mesmo com US$ 317 milhões em juros trimestrais. O mercado vai acompanhar se a geração de caixa aguenta a alavancagem sem apertar o guidance de margem.

Nos números, foi o melhor trimestre da história da Salesforce. A questão é o que vem junto: uma dívida de US$ 39 bilhões e uma promessa de aceleração orgânica no segundo semestre. Benioff assinou o cheque… mas o futuro do Agentforce precisa pagar.

Recomendação dos analistas:

Compra forte: 6 | Compra: 28 | Neutro: 10 | Venda Forte: 2

Preço-alvo médio: US$ 261,16 | Preço atual: US$ 177,51

MACRO/AÇÕES

  • IPCA-15: sobe 0,62% em maio, acima das expectativas.

  • Chips: empresas do setor entram para o clube do trilhão.

  • China: exportações de carros elétricos sobem 40% em abril.

  • Venezuela: o banqueiro socialista escolhido para reorganizar as finanças e atrair investidores.

  • Crédito: a qualidade do crédito está piorando? A resposta não é tão simples.

  • Gasolina: Governo fixa subvenção ao combustível em R$ 0,44 por litro.

  • CVM: envia à Fazenda plano de reestruturação com 22 medidas.

  • ETF: de fabricantes de chips atinge montante de US$ 10 bilhões, o mais rápido da história.

  • FIDCs: enfrentam ondas de recuperações judiciais.

  • Quantinuum Inc: busca levantar US$ 1,05 bilhão em IPO.

  • Ecopetrol: dá passo final para assumir controle da Brava Energia.

  • Muffato: Irmãos Muffato preparam terreno no Cade para indicar conselheiros no Assaí.

  • CACR11: CRI ligado ao FII entra em inadimplência e acende alerta sobre operações do fundo.

CSD BR: a 2a bolsa mais perto

Rival da B3 está ficando menos hipotética

A empresa que quer criar uma segunda bolsa de valores no Brasil acaba de resolver seu maior problema técnico. A CSD BR fechou um acordo com a MEMX, empresa americana especializada no sistema que é o coração de qualquer bolsa: o motor que recebe ordens de compra e venda e decide, em microssegundos, quais casam entre si. Sem ele, não existe bolsa.

A CSD tinha duas opções: construir do zero ou buscar parceria. Escolheu a segunda. Para a B3, que opera como monopólio há anos, o retrovisor começa a mostrar algo se aproximando.

O que diferencia uma boa matching engine de uma ruim? Estabilidade, velocidade e consistência. E o sistema da MEMX é reconhecido como referência nesses três critérios.

Do ponto de vista regulatório, a CSD está mais perto da linha de chegada do que parece. Em dezembro de 2024, o Banco Central concedeu as licenças para operar uma depositária e uma câmara de liquidação, duas das três peças essenciais. A única que falta é a de contraparte central (CCP). O pedido já foi feito e a expectativa é que o processo termine em 2027.

O dinheiro também não falta. A empresa captou R$ 350 milhões em três rodadas:

  • R$ 50 milhões com famílias como as dos controladores da Suzano e da Gerdau

  • R$ 200 milhões com Santander, BTG e CBOE (a bolsa de Chicago)

  • R$ 100 milhões com Citi, UBS e Morgan Stanley

A lista é de pesos-pesados e são exatamente os bancos que mais têm a ganhar com um ambiente mais competitivo no mercado de capitais brasileiro. A tão falada bolsa nova ainda não existe, mas está ficando menos hipotética.

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HP: resultados sem CEO

A fabricante de PCs mais esquecida do S&P 500 ainda existe

A galera do pagode que nos perdoe, mas a HP está bem melhor do que os inimigos esperavam. A fabricante de PCs soltou seus resultados e lembrou ao mercado que ainda existe e consegue crescer: foram 9% a mais na receita — o tipo de número que a empresa não via com frequência há alguns anos.

Os números do trimestre:

  • 🟢 Receita Líquida: US$ 14,4 bilhões, alta de 9% no ano e melhor ritmo de crescimento em anos.

  • 🟢 Lucro por ação: US$ 0,86 x US$ 0,72 esperados

O bom: o ciclo de atualização corporativa puxado por IA ainda tem fôlego - Comercial cresceu 14% e Consumidor 10%, números que muita gente não apostava mais ver nesse setor.

O esperado: impressão entregou o que sempre entrega ultimamente - receita parada e margem encolhendo, de 19,2% para 18,3%. Pequeno em termos absolutos, mas é uma sangria que não para.

A surpresa: o fluxo de caixa livre saiu de -US$ 100 mi para +US$ 0,8 bi em um ano - e deu confiança suficiente para a HP elevar o guidance de lucro por ação para US$ 2,90–3,10.

O problema que não aparece nos números? A cadeira do CEO está vaga e o board busca um nome permanente. Os custos dessa transição já entraram na linha de reestruturação, junto com demissões, racionalização de TI e iniciativas de IA interna. No primeiro semestre, a HP gastou US$ 491 milhões em encargos de reestruturação, o dobro do trimestre passado.

Recomendação dos analistas:

Compra forte: 3 | Compra: 8 | Neutro: 11 | Venda Forte: 1

Preço-alvo médio: US$ 29,92 | Preço atual: US$ 37,20

STATS DO DIA

R$ 6 bilhões

Foi o investimento em data centers para IA no Brasil feito pela Ascenty. Os novos equipamentos somam 150 megawatts de capacidade computacional.

Via ValorEconômico

Brasil: as empresas no 1T’26

a palavra de ordem virou desalavancagem

Depois de quase todo mundo já ter soltado os reports trimestrais, o Valor compilou os dados de 342 empresas não financeiras (e exclui Petrobras e Vale) do Brasil. Os números mostram dois lados: receitas subindo e lucro líquido caindo.

↑ Receitas: R$ 877,8 bilhões (+5% na comparação anual).
↓ Lucro líquido: R$ 46,3 bilhões (-4,2%)

Os vilões da temporada já são conhecidos: juros e geopolítica. Enquanto a Selic alta segue encarecendo dívidas e comprimindo as margens, o conflito no Oriente Médio trouxe a disparada dos preços do petróleo - que foi direto para as linhas de frete e custo de matéria-prima das empresas.

O diagnóstico dos analistas converge: os resultados foram neutros, mas com sinais de deterioração. Para ter ideia da diferença de ritmo, as receitas cresceram 14% no primeiro trimestre de 2025 ante o mesmo período do ano anterior.

Nas teleconferências, os executivos já mostraram preocupação. A palavra de ordem virou "preservação de margens"… e quem não está falando disso está falando de "desalavancagem".

Exemplos não faltam: CSN quer reduzir endividamento; Vale e Gerdau apostam em flexibilidade de portfólio; WEG de olho nos custos da cadeia produtiva. No varejo, o cenário é ainda mais sensível porque juros altos limitam crédito, consumo desacelera, e qualquer erro de estoque ou precificação cobra caro.

Dois amortecedores evitaram que o resultado fosse ainda pior: o setor de commodities, que se beneficia do petróleo mais caro, e os estímulos fiscais do governo injetando recursos na economia doméstica.

O segundo trimestre vai testar essa tese. Com o petróleo acima de US$ 100 e o efeito dos custos de frete sendo sentido por completo agora, as empresas exportadoras ganham, as domésticas sofrem… com os investidores de olho na inadimplência, nas margens e na capacidade de repasse ao consumidor final.

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