
Bom dia, Dropper!
Pensei no chuveiro: que na teoria o sistema financeiro brasileiro é referência global em tecnologia: temos PIX, open finance, bancos 100% digitais, infra de pagamentos… mas quando o BC resolveu exigir que os bancos reportem métricas de risco organizadas e estruturadas, foi uma correria e o setor pediu prorrogações. O mesmo banco que manda um Pix em 3 segundos não consegue dizer, em tempo hábil, a informação que usou pra montar o próprio balanço.
No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:
• Micron: quando a fila é maior que o estoque
• Digi+: crescimento acelerado, captação cara
• Short na Wendy's: o Reddit ataca de novo
• Fictor: 2% ao mês, 5% de volta

GIRO PELO MERCADO

Por aqui, a sequência de recuperação do Ibovespa parou nos três dias e ontem o índice caiu 0,44% - num dia de realização das blue chips mas com baixa liquidez. Pesou a queda do petróleo, que derrubou Petrobras e o setor de energia, com o dólar voltando a incomodar e batendo na casa dos R$ 5,20. Sem agenda doméstica relevante, o mercado continua digerindo a ata do Copom e acompanhando o humor lá de fora, onde o clima continua pesado pro lado da tecnologia.
Lá fora, o trade de IA levou o terceiro susto seguido. Depois da surra global de terça (com a coreana Kospi caindo quase 10% e os chips derretendo), o mercado seguiu com a sobrancelha levantada: o S&P 500 recuou 0,10% e a Nasdaq, 0,43%, enquanto o Dow (mais leve em tech) subiu 0,35%. O grande personagem do dia foi o petróleo, com o Brent caindo mais de 4%, no menor nível desde antes de a guerra começar. O alívio veio só no fim do dia: a Micron divulgou um balanço forte e reanimou os semicondutores no after-hours. Hoje temos o PCE, e o mercado quer saber se ainda pode sonhar com corte de juros.
Micron: quando a fila é maior que o estoque
de demissões a US$ 41,5 bilhões por trimestre

Quando a Nvidia vende uma GPU de última geração, alguém precisa fornecer um chip de memória do mesmo nível . Um desses alguéns é a Micron… que finalmente mostrou à que veio e entregou o maior trimestre da sua história - prometendo entregar um ainda maior no próximo.
A demanda por memória anda tão forte que elevou preços e colocou as três maiores fabricantes do mundo no clube das empresas que valem +US$ 1 trilhão.
→ Samsung (Coreia do Sul): US$ 1,5 tri
→ SK Hynix (Coreia do Sul): US$ 1,3 tri
→ Micron (EUA): US$ 1,1 tri
Os números do trimestre:
🟢 Receita: US$ 41,5 bilhões, alta de 346% no ano e 74% no trimestre
🟢 Margem bruta: 84,9%, recorde histórico.
🟢 Lucro por ação: US$ 25,11 x US$ 20,78 esperados
A empresa que em 2023 queimava caixa e demitia funcionários agora gera US$ 25 bilhões de caixa operacional por trimestre. Colocando em perspectiva, o caixa gerado neste único trimestre é quase o dobro de toda a receita que a empresa tinha há dois anos!
O segmento mais quente foi o Core Data Center, que cresceu 653% a/a para US$ 11,5 bilhões, com margem operacional de 83%. A Cloud Memory veio logo atrás com US$ 13,8 bilhões e 78% de margem operacional. Até o segmento automotivo, geralmente o mais discreto, cresceu 311%.
Destaque para os SCAs (Strategic Customer Agreements), os acordos de longo prazo que a Micron começou a assinar com seus maiores clientes. São 16 acordos no total, com prazo de 5 anos e estrutura take-or-pay: o cliente se compromete a comprar, independente do que aconteça com o mercado.
Para os Bulls: a Micron travou o melhor ambiente de preços da história em contratos de 5 anos com piso garantido. Margem bruta de 85% não é pico de ciclo, é o novo piso contratual. Guidance de US$ 50 bilhões para o próximo trimestre, e sem visibilidade de fato de quando a oferta vai equilibrar a demanda. O ciclo estaria no começo, não no fim.
Para os Bears: os SCAs têm teto de preço no nível atual, ou seja, se o mercado subir, a Micron não captura; se cair, fica presa em volumes com piso. O capex tá acelerando, batendo US$ 27 bilhões no ano fiscal. Goldman Sachs tem target perto de US$ 400 com a ação acima de US$ 1.000.
Uma empresa que faturava US$ 9 bilhões por trimestre há um ano vai faturar US$ 50 bilhões no próximo e já vale US$ 1 trilhão, com alta de 720% no último ano. Após o resultado, a empresa subia +16% no after-market.
Recomendação dos analistas:
Compra forte: 9 | Compra: 29 | Neutro: 4 | Venda: 1
Preço-alvo médio: US$ 1.048 | Preço atual: US$ 1.048,51
MACRO/AÇÕES
FED: WS prevê 68% de probabilidade de um aumento da taxa de juros em setembro.
Brasil: classes D e E encolhem e já são menos de 20% da população do Brasil.
Inflação: segundo ata do Copom, cenário se deteriorou.
Barbell: a estratégia que vem virando moda depois de 2022.
Carnival: ação cai após guidance mais fraco que o esperado.
Qualcomm: chegou a cair -8,01%, com relatos de que a empresa está em negociações para adquirir a plataforma de desenvolvimento de IA Modular por US$ 4 bilhões.
Goldman Sachs: mesa de stocks tem previsão de bater US$ 5 bilhões em receita, superando a estimativa média de US$ 4,77 bilhões.
SpaceX: o short interest estimado em cerca de 5 a 7% das ações em circulação.
Azzas: família Hering quer a marca de volta e contrata BR Partners para negociar.
Light: capta R$ 1,24 bi em aumento de capital e vai deixar RJ.
Petrobras: e Pemex firmam acordo para prospectar pré-sal mexicano.
MRV: dá mais um passo na estratégia de reduzir endividamento da Resia.
B3: ganha vitrine na China para atrair investidores ao mercado brasileiro.
Digi+: crescimento acelerado, captação cara
e auditores que não conseguiram fechar o balanço

Tem uma coisa que banco nenhum deveria fazer: oferecer um valor muito acima do CDI sem ter ativos de verdade pra cobrir. O Digi+ (controlado pelo bispo Edir Macedo e alvo da Operação Miragem da PF) parece ter feito exatamente isso .. mas com R$ 8,54 bilhões em CDBs na rua.
A lógica é antiga, mas funciona por um tempo: pague mais que o mercado para atrair investidores, use esse dinheiro para sustentar a operação e torça para que os reguladores demorem para olhar de perto.
No Digimais, o custo total dessa captação chegava a 115,70% do CDI, o que significa que apenas no segundo semestre de 2025, as despesas com funding somaram R$ 702 milhões. No ano inteiro, R$ 1,27 bilhão.
Com esse custo, o banco encerrou 2025 com lucro líquido de R$ 31 milhões no papel. Só que no segundo semestre já aparecia prejuízo de R$ 10,8 milhões. No primeiro trimestre de 2026, o prejuízo saltou para R$ 108,7 milhões - dado extraído do BC, já que o Digimais só divulga balanço semestral. Mas o problema maior é o que esta embaixo do balanço:
Auditores não conseguiram obter evidências suficientes sobre R$ 3,1 bilhões em cotas de fundos de investimento…
E levantaram dúvidas sobre uma venda de R$ 741 milhões em cotas do FIDC Hermon para uma empresa chamada B.A. Empreendimentos, que é relacionado ao próprio banco.
A operação gerou um efeito contábil positivo de R$ 126 milhões, mas os auditores afirmaram, com todas as letras, que não conseguiram concluir se aquilo era real.
Se o Digi+ for mais um na estática do FGC e for liquidado, a estimativa é que mais de R$ 7 bilhões sejam de preju sejam adicionados ao cofre. Lembrando que recentemente o fundo gastou mais de R$ 50 bilhões com Master, Banco Pleno e Will Bank.
→ Quem comprou CDB do Digimais até R$ 250 mil por CPF tem a proteção do FGC.
Short na Wendy's: o Reddit ataca de novo
Ações da rede de fast food subiram 42% depois de um fórum clamando por salvar a companhia

Em 1776, os Founding Fathers assinaram a Declaração de Independência dos EUA. 250 anos depois, os herdeiros desse legado decidiram que a missão histórica de comemoração seria salvar a Wendy’s.
Um post chamado “we need to save Wendy’s” foi o suficiente pra fazer a ação subir 42% e registrar mais um short squeeze na conta dos retards. O gatilho formal foi a nomeação do novo CFO. O combustível real foi o Reddit.
Sem uma tese fundamentalista que justifique o interesse, cerca de 32% das ações estão vendidas a descoberto, o que significa que uma parte relevante do mercado acredita na queda da empresa.
Quando o preço sobe rápido demais, esses vendedores a descoberto precisam comprar ações para cobrir a posição, o que vai empurrando o preço mais pra cima, num efeito cascata. É o famoso short squeeze, a mesma mecânica que fizeram com a lendária GameStop em 2021.
Os ingredientes dessa vez:
short interest alto: ~32%.
queda da ação: Wendy’s já caiu -70% desde 2023, sendo 33% apenas no último ano.
empresa “esquecida”: fazendo com que o varejo monte posição com pouco capital.
Claro que otimismo tem limite. No ano passado, uma tentativa parecida com a Beyond Meat acabou muito mal, com o short squeeze não se sustentando e quem entrou tarde acabou saindo no prejuízo.
A diferença entre um meme stock e um investimento real costuma ser o que acontece depois dos primeiros dias de euforia. Se vai se sustentar ou não, não saberemos, mas o pessoal do Reddit já está com a pipoca numa mão e a outra com dedo no gatilho de negociação.
→ No campo do short squeeze, vale a pena conferir o doc da GameStop na Netflix.
→ Ou a versão drama na Prime.
STATS DO DIA
7.800
É o novo alvo para o S&P do JPMorgan. Apesar do salto dos 7.350 de hoje e de aumentar dos 7.600 do alvo atual, eles alertam para tempos voláteis.
Via YahooFinance
Fictor: 2% ao mês, 5% de volta
o plano de recuperação que não recupera ninguém

Imagina investir numa aplicação que prometia 2% ao mês… e a empresa entra em RJ. Quando o plano de pagamento finalmente chega, a proposta é: "a gente fica com 95% do seu dinheiro, tá bom?". Certamente não tá bom, mas é exatamente isso que o Grupo Fictor colocou na mesa nesta semana.
O Grupo Fictor entrou com pedido de RJ em fevereiro, declarando dívidas de R$ 4,3 bilhões. Os investidores que aportaram recursos nas chamadas Sociedades de Conta em Participação (SCP), que na prática funcionavam como uma aplicação de renda fixa prometendo cerca de 2% ao mês são tratados como credores quirografários, a categoria que fica no fim da fila.
O plano apresentado tem duas rotas, e nenhuma delas é boa:
Rota 1: se a Fictor conseguir um empréstimo DIP de R$ 150 milhões nos próximos 18 meses, tem pagamento escalonado por faixa de crédito. Quem tem até R$ 5 mil recebe tudo. Quem tem R$ 100 mil recebe R$ 23.750 - menos de 24% do principal.
Rota 2: se não conseguir o DIP, deságio de 95%. Os 5% restantes são pagos em 15 parcelas anuais, com a primeira chegando 60 meses depois da homologação do plano, corrigidas pela TR mais 1% ao ano. Em outras palavras: daqui a cinco anos você começa a receber migalhas atualizadas por um índice que praticamente não existe mais.
Como bônus, o plano propõe extinguir todas as ações de cobrança e execuções judiciais contra as recuperandas, incluindo sócios, avalistas e fiadores.
A discussão de fundo ainda não tem resposta: os contratos de SCP eram investimentos disfarçados ou empréstimos legítimos? A administradora judicial entende que eram mútuos e quer remunerar pela Selic deduzida do IPCA. Os credores discordam e querem os 2% prometidos.
Recuperação judicial existe para dar chance a empresas viáveis de se reorganizar. O que não deveria existir é uma empresa que prometia 2% ao mês sem lastro real para isso. Alguém, no fim do dia, sempre paga a conta.
DROP LIKE IT'S HOT
[para invejar] A remuneração mediana dos CEOs do S&P 500 subiu para quase US$ 18 milhões. Confira os pacotes de remuneração astronômicos.
[para se inspirar] a trajetória do brasileiro novo CEO da Heineken.
[para assistir] reflexões de Daniel Goldberg, um dos principais gestores do mercado.
[para estudar] ações mais caras e mais baratas ao mesmo tempo.

O que você achou da edição de hoje?
DROPS
Elevando o QI da internet no Brasil, uma newsletter por vez. Nós filtramos tudo de mais importante e relevante que aconteceu no mercado para te entregar uma dieta de informação saudável, rápida e inteligente, diretamente no seu inbox. Dê tchau as assinaturas pagas, banners indesejados, pop-ups intrometidos. É free e forever will be
