Bom dia, Dropper!

Pensei no chuveiro: enquanto muita gente acha que quem faz pesquisa macroeconômica fica na frente da planilha lutando contra o tédio, a Citrini Research provou o contrário ao enviar um analista anônimo para uma zona de guerra. Tudo para catalogar os movimentos do Estreito de Ormuz em tempo real — fazendo praticamente um reality show em forma de relatório.

No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:

• Hapvida: diagnóstico crítico
• Natura: mudanças no leme
• Tesla: fim de uma era (e de vendas)
• Day trade: o cassino de bolso dos brasileiros

Dropped pelos humanos Igor Chede Collaço e Renan Hamann
GIRO PELO MERCADO

Por aqui, a estabilidade reflete a calmaria causada pelo baixo volume de negociações, com todo mundo de olho no Oriente Médio pra saber se as coisas vão escalar ou cessar no Irã. A subida da Petro (1,15%) ajudou o Ibovespa a ficar no terreno positivo (0,06%), mas atrás dos ganhos no exterior. O dólar deu uma acalmada e agora está em R$ 5,14 — 10 centavos abaixo da semana passada.

Lá fora, o mercado abriu com menos stress, na esperança de que o ultimato-nada-pacífico de Trump (“abram o estreito de Ormuz, ou viverão no inferno”) levasse a negociações de paz. O petróleo subiu com as ameaças, mas parte do mercado já espera o recuo — o famoso TACO. O Bitcoin rompeu os US$ 70 mil, impulsionado pela notícia de que a Strategy comprou US$ 330 milhões em criptomoedas na semana passada.

Hapvida: diagnóstico crítico

O plano de saúde precisa de um plano depois de perder ~88% do valor de mercado

Ninguém quer ouvir que a própria empresa é “uma das maiores destruições de valor da história da bolsa”. Mas foi isso que rolou na Hapvida, que recebeu as palavras duras em uma carta da Squadra Investimentos — com cobrança, sugestão estratégica e pedidos de mudança no conselho.

Com 6,8% da companhia, a gestora colocou na mesa uma ideia sensível: avaliar a venda das operações no Sul e Sudeste, que são justamente os ativos herdados da fusão com a Notre Dame Intermédica.

Um dos pedidos da Squadra é mexer na governança: quer voto múltiplo na próxima assembleia e indicar três nomes para o conselho. As motivações são claras:

  • O turnaround prometido até agora não entregou sinais concretos de melhora;

  • Os riscos seguem altos e o custo de oportunidade só aumenta;

  • Decisões mal calibradas desde o IPO;

  • Integração problemática de ativos;

  • Poison pill limitando minoritários;

  • Na visão da gestora, o conselho parece desconectado da empresa, especialmente quando propõe uma remuneração de R$ 57 milhões em 2026 — algo perto de 20% do lucro estimado e entre as maiores da bolsa.

Tudo isso teria colaborado para que as ações da Hapvida perdessem ~88% do valor desde que abriu capital — enquanto o Ibovespa subiu +100% no período.

A gestora bate o pé: ou a companhia recalibra a rota (seja vendendo ativos ou seja reformulando o conselho) ou o mercado vai continuar cobrando a conta. Nesse ritmo, a própria saúde da empresa é que está em apuros.

PS: Hapvida tem assembleia no dia 30 de abril e a Squadra já colocou três nomes na disputa pelo conselho.

MACRO/AÇÕES

  • Fibonacci: quando o mercado começa a cair, um conceito matemático de 800 anos entra em cena.

  • BC da Inglaterra: Bailey diz que investidores não devem contar com alta de juros no Reino Unido.

  • Fluxo: investidores estrangeiros aplicam R$ 50 bilhões na bolsa brasileira no 1º trimestre.

  • Boletim Focus: projeção da inflação sobe para 4,36%.

  • FIIs: ALZR11 capta dinheiro novo, levantando R$ 450 milhões.

  • IR: Ministro da Fazenda confirma plano de acabar com declaração do IR.

  • Advanced Corretora: foi liquidada pelo BC e se encontrava insolvente.

  • Oi: justiça aprova venda para o BTG da fatia da Oi na V.tal.

  • Raízen: propõe converter dívida e pode ceder até 70% do controle da empresa a credores.

  • Embraer: entrega 44 aeronaves e surpreende positivamente analistas.

  • Petrobras: quer autossuficiência em diesel até 2031, e nessa confusão vende até 77% abaixo.

  • Votorantim: chega a R$ 7,7 bilhões em caixa e zero dívida.

Natura: mudanças no leme

Troca no comando, mas rumo da companhia segue o mesmo

A Natura resolveu dar uma repaginada no time e trouxe um novo sócio. A gestora Advent International está negociando a compra de 8%-10% da companhia, virando acionista minoritária depois de comprar ações no mercado, gastando entre R$ 1 bilhão e R$ 1,3 bilhão — e com direito a até dois conselheiros indicados.

Enquanto isso, os fundadores estão saindo do conselho de administração… para se sentar na sala ao lado. Eles migram para um novo “conselho consultivo”, onde continuam influenciando cultura e estratégia da marca. Deixam o palco principal, mas seguem nos bastidores garantindo que a essência da empresa não se perca no caminho.

A movimentação vem logo depois de uma fase intensa de turnaround. A Natura vendeu ativos internacionais, simplificou a operação e basicamente fez um detox corporativo, saindo de uma alavancagem de 6,7x dívida/Ebitda para cerca de 1,3x. Agora, com a casa mais organizada, a ideia é voltar a crescer… com foco onde tudo começou: a América Latina.

E é aí que entra o Advent. O fundo chega para trazer disciplina financeira, experiência global e um olhar mais pragmático pra execução. Em outras palavras, menos filosofia, mais planilha.

O movimento tenta um equilíbrio delicado: manter a alma da Natura, construída pelos fundadores ao longo de décadas, enquanto tenta acelerar resultados num mercado cada vez mais competitivo. Se der certo, é o tipo de combinação que costuma cheirar bem para investidores. Se não… bom, pelo menos o branding continua impecável.

PS: a carta do trio fundador da Natura.

DECIFRANDO O CONDADO

Turnaround

É o processo de virar o jogo de uma empresa que estava indo mal, seja por problemas financeiros, operacionais ou estratégicos, e colocá-la de volta nos trilhos.

Envolve cortes de custos, mudança de gestão, revisão de estratégia e, muitas vezes, decisões difíceis para recuperar eficiência e lucratividade.

Para investidores, é aquela história de comprar barato apostando na virada: quando dá certo, o retorno pode ser enorme; quando não dá, vira mais um caso de “era para ter sido”.

Tesla: fim de uma era (e de vendas)

Empresa quer ser vista como uma gigante da robótica, mas ainda precisa vender carros

A empresa que já foi sinônimo de carro elétrico segue sem empolgar tanto. A Tesla começou 2026 pisando no freio, entregando 358 mil veículos, abaixo das baixas expectativas de 400 mil — e longe dos 408 mil produzidos, deixando um “estoque encalhado”.

Os analistas têm um combo de explicações:

  • linha de produtos envelhecida;

  • concorrência cada vez mais agressiva;

  • e um mercado de elétricos mais frio nos EUA, especialmente depois que o governo Trump cortou o crédito fiscal de US$ 7.500 pra EVs, que ajudava bastante a fechar a conta pro consumidor.

Tudo isso enquanto a Tesla quer deixar de ser uma montadora e se transformar numa “empresa de robótica que também faz carros”. Apesar de os EVs ainda serem o ganha-pão, o futuro planejado é de robotáxis, robôs humanoides Optimus na Terra e no Espaço, gigafactories e um futuro autônomo que ainda não paga as contas de hoje.

Mas o investidor parece não ter comprado muito bem essa visão futurista… já são 2 anos seguidos de quedas anuais em vendas e as ações já caem 23,66% nesse ano.

No detalhe, o negócio ficou ainda mais concentrado: os modelos “de entrada”, Model 3 e Model Y, responderam por praticamente tudo — mais de 340 mil unidades —, enquanto os carros mais premium estão saindo de cena. A Tesla, inclusive, já encerrou a produção dos Model S e X, com o próprio Elon Musk decretando o “fim de uma era” e que amava esses carros.

No meio de tanta decepção, um possível ponto positivo: com o petróleo subindo por causa da guerra no Irã, abastecer está ficando mais caro… e isso pode empurrar mais gente pros elétricos.

A Tesla quer ser vista como uma empresa de robôs, IA e direção autônoma. O mercado, por enquanto, só enxerga uma montadora que precisa vender mais. No pitch, é o futuro. No balanço, ainda é carro.

PS: Cathie Wood comprou 39.691 ações da $TSLA ontem.

Day trade: o cassino de bolso dos brasileiros

1 milhão operando, 96% perdendo

Enquanto o Brasil ainda tenta lidar com a explosão das bets e dos tigrinhos, outra febre silenciosa volta a ganhar espaço: o vício em day trade.

Day-trades são operações abertas e fechadas no mesmo dia, tentando pegar pequenas oscilações do mercado para lucrar com compra-venda de ações no curtíssimo prazo.

A B3 divulgou que mais de 1 milhão de brasileiros fizeram ao menos uma operação day-trade em 2024, o dobro de antes da pandemia. O problema é que um estudo da FGV mostra que, em mais de 96% dos dias, investidores pessoa física perdem dinheiro operando

Com a explosão de influenciadores financeiros (mais de 800 mapeados pela Anbima só no primeiro semestre de 2025), o feed virou uma vitrine de promessas: “transforme R$ 10 mil em R$ 1 milhão”, “deixe o robô operar por você”. Tudo isso embalado por fotos de luxo, liberdade e aquelas promessas de pagar as contas com um tradezinho.

O problema é que a mistura de adrenalina, ilusão de controle e busca por ganho rápido transforma o que deveria ser investimento em algo muito mais próximo de um cassino de bolso — em que o jogador só ganha 4% das vezes.

Nem todo trader é viciado, claro. Mas, para quem cruza essa linha, o jogo deixa de ser sobre dinheiro — e passa a ser sobre não conseguir parar.

PS: com base nos dados da B3, são 54 mil day traders ativos (que operam com frequência).
PS2: o crescimento de PF em renda variável cresceu 440% de 2019 a 2025.
PS3: o público é majoritariamente de homens (74%), com ensino superior completo e renda mensal de aproximadamente R$ 5 mil

480

É o número de empresas do S&P500 que a Berkshire Hathaway pode comprar com os seus US$ 373 bilhões em caixa. Ou seja, 96% de todo o índice.

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