Bom dia, Dropper!

Pensei no chuveiro: que na teoria os últimos anos foram de democratização do mercado financeiro brasileiro, com milhões de CPFs novos na B3 e educação financeira em alta. Mas com a Selic subindo e o Tigrinho chegando, boa parte desse capital migrou de ações para caça-níqueis online. O brasileiro não perdeu o apetite por risco… só trocou o home broker pelo giro instantâneo e o ticker pelo bichinho da sorte. E hoje temos o triste dado de que mais pessoas apostam do que possuem ações na carteira.

No Drop de hoje, em 5 min e direto ao ponto:

• Cripto vs bancos: a guerra fria de WS
• Ibov: a teoria da piscina olímpica
• Raízen: RJ aprovada
• Nubank: CFO saindo, sellside fugindo

Dropped pelos humanos Igor Chede Collaço e Renan Hamann
GIRO PELO MERCADO

Por aqui, o Ibovespa fechou oito semanas seguidas sem sorrisos, fechando no vermelho e acumulando quase 15% de queda desde as máximas de abril. Como desgraça nunca vem sozinha, o Focus trouxe também a 13a semana consecutiva de alta na projeção do IPCA - agora em 5,11% e empurrando a Selic pra 13,50%. O gringo, que vinha de namoro com a bolsa, agora arruma as malas às pressas: são sete pregões seguidos de saída líquida negativa, com mais de R$ 8 bi rumo a outros emergentes.

Lá fora, depois da sexta-feira de terror, com destaque para o Nasdaq derretendo 4,18%, e ~US$ 1 tri de chips indo pelo ralo, ontem foi dia de recolher os cacos. A Micron, que tinha caído 13%, voltou subindo quase 10% e arrastou o setor - a Nasdaq fechou em alta de 0,86% e o S&P 500 em +0,30%. Trump segue tentando manter o cessar-fogo de pé enquanto Irã e Israel ainda trocam mísseis no fim de semana. Amanhã temos a inflação CPI de maio, um dos últimos dados econômicos antes da próxima reunião do Fed na semana que vem.

Cripto vs bancos: a guerra fria de WS

Jamie Dimon e Brian Armstrong em Guerra Fria financeira

Muita gente defende que o mundo cripto e o sistema bancário podem coexistir em paz… mas ninguém avisou Jamie Dimon (JP Morgan) e Brian Armstrong (Coinbase). Os dois entraram numa espécie de “Guerra Fria financeira”, com direito a lobby pesado em Washington, troca de farpas públicas e um projeto de lei no centro do ringue.

O estopim é o Clarity Act, a lei que o Congresso americano está discutindo para estabelecer bases legais para a indústria cripto operar nos EUA.

O ponto de discórdia é quase poético: stablecoins que pagam rendimento. Para as corretoras cripto, isso é inovação. Para os bancos, é basicamente criar uma “conta remunerada 2.0”… sem precisar seguir as mesmas regras.

Contra todas as expectativas, o lado cripto parece estar levando vantagem. Aí Dimon saiu do modo institucional e decidiu ir direto ao ponto: acusou a Coinbase de gastar centenas de milhões para influenciar a lei. Armstrong respondeu com um meme - uma montagem inspirada na série Heated Rivalry, colocando ele e Dimon como protagonistas.

→ Um detalhe: na história original, os rivais são, na verdade… amantes secretos.

Por trás do entretenimento, tem um jogo bem sério acontecendo. A indústria cripto apostou pesado no cenário político recente, se aproximou de Washington e agora começa a colher os frutos. Enquanto isso, os bancos correm para reforçar o lobby e tentar endurecer o texto.

O risco é o relógio… se o projeto não andar antes do recesso, pode não ser uma prioridade na volta. E aí, no melhor estilo mercado financeiro, ninguém ganha: bancos continuam desconfiados, cripto segue sem clareza regulatória… e o investidor fica assistindo esse duelo digno de streaming, mas com impacto bem real no bolso.

MACRO/AÇÕES

  • Bitcoin: cai abaixo de US$ 60.000 pela primeira vez desde a reeleição de Trump em 2024.

  • Mega IPOs: podem drenar fluxo para ações brasileiras.

  • Dividendos: da Bolsa se aproximam de R$ 1 tri.

  • Brasil: Kapitalo diz que está com a menor exposição de risco no país em 24 meses.

  • Panamá: vai taxar em 15% empresas de fachada usadas por estrangeiros ricos.

  • Argentina: Stanley Druckenmiller lidera o retorno de WS às ações no país.

  • Copasa: escolhe Equatorial como acionista de referência após proposta de até R$ 7,9 bilhões.

  • SpaceX: WS prevê que receita de IA da SpaceX crescerá 100 vezes até 2030.

  • Magalu: Citi eleva recomendação para neutra, mas mantém classificação de alto risco.

  • Pernambucanas: prejuízos levantam dúvidas significativas sobre continuidade da empresa.

  • Braskem: negocia para iniciar recuperação extrajudicial antes de julho.

  • OranjeBTC: perde R$ 3 bilhões em valor de mercado desde a estreia na bolsa.

  • FTX: Sam Bankman-Fried, cofundador, submeteu oficialmente um pedido de perdão presidencial ao DoJ.

Ibov: a teoria da piscina olímpica

Por que alguns baldes derramados pelos EUA podem mudar o jogo

Já tinha boné pronto pra celebrar os 200 mil pontos, mas o “quase” ficou longe e o sell-off derrubou o Ibov pros 168 mil pontos. Só em maio, R$ 15 bilhões em capital estrangeiro deixaram o Brasil, no maior volume desde 2022. Mas tem gente que segue “super otimista”… como o gestor João Luiz Braga (Encore Asset), que aposta na metáfora da piscina olímpica:

Nos últimos 17 anos, o capital global foi quase inteiro para os EUA, uma piscina enorme. Agora, com pressão de concentração, taxas de câmbio, tarifas e valorização excessiva, esse capital começa a buscar outros destinos. Quando alguns baldes dessa piscina são direcionados ao Brasil, o impacto é desproporcional: nossa bolsa é pequena, e pouco fluxo move muito preço.

Na visão dele, esse processo acontece em três ondas, e a mais interessante ainda não chegou:

  1. A primeira, no fim de 2024: investidores que já conheciam o Brasil e aproveitaram a queda provocada pelo barulho fiscal para entrar barato.

  2. A segunda, em janeiro de 2026: o smart money global comprando índices em busca de diversificação rápida.

  3. A terceira, e em teoria, mais duradoura: será formada por gestores internacionais que voltarão a analisar empresas e gestores locais com calma. É a onda que investe em tese, não em timing.

E tem um detalhe que ajuda a entender por que estrangeiro e local veem o Brasil de formas tão diferentes. O investidor global tem menos sensibilidade política e mais perspectiva comparativa. Ele não está monitorando declaração de ministro. Está comparando valuation, trajetória de juros e ambiente de negócios entre países emergentes.

O cenário macro reforça a tese. O saldo de capital estrangeiro no Brasil ainda é positivo em quase R$ 44 bilhões em 2026, mesmo com a saída de maio.

A B3 está, literalmente, do tamanho de uma banheira comparada à piscina americana. O Ibovespa hoje vale apenas US$ 841 bilhões. No mercado americano, 12 empresas, SOZINHAS, valem mais que o ibovespa inteiro!

DECIFRANDO O CONDADO

Smart Money

É o capital movimentado por investidores sofisticados (fundos institucionais, hedge funds, bancos e gestoras de grande porte) que, em tese, tomam decisões mais informadas e antecipam movimentos do mercado antes do investidor comum.

A lógica é que esses players têm acesso a análises mais profundas, modelos mais robustos e, às vezes, informações que o mercado ainda não precificou, o que faz com que seus movimentos sirvam como sinais para quem sabe ler o fluxo.

Quando o smart money entra em um ativo, muitos interpretam como validação; quando sai, como alerta.

Raízen: recuperação extrajudicial aprovada

Só que a empresa vai entregar 80% de si para sobreviver

Quando uma empresa precisa entregar mais de 80% de si mesma para sobreviver, o tamanho do problema nem precisa de muita explicação. A Raízen protocolou seu plano de RJ com R$ 65 bilhões em dívida - convertendo 45% dela em ações.

Cada papel sai por R$ 0,25 e os credores ficam com +80% da empresa. Os controladores, a Shell e Rubens Ometto, saem do outro lado com uma fatia minoritária de algo que era um dos maiores conglomerados do agro brasileiro.

O restante da dívida não convertida, será trocado por novos papéis, distribuídos entre os dois negócios em que a empresa será dividida até o fim de 2027, separando os setores de açúcar e etanol do de combustíveis.

  • Raízen Combustíveis absorve 37% da dívida, com títulos pagando CDI + 2,75% ou 8,5% a.a. em dólar, vencendo em 2032 e 2034.

  • Raízen Energia fica com 18%, com papéis vencendo em 2033 e 2035 e remuneração de CDI + 1,25% ou 7% a.a. em dólar.

Também tem vendas de ativos: usinas com capacidade de moagem entre 10 e 15 milhões de toneladas devem ir ao mercado. A operação argentina já foi vendida por US$ 1,4 bilhão para a trading Mercuria, mas os valores serão usados para reforçar o caixa - que ainda pode ganhar um aporte de até R$ 4 bi dos controladores.

A Raízen não quebrou… mas a empresa que vai sair desse processo não é a mesma que entrou.

STATS DO DIA

US$ 3,6 milhões

É o quanto Elon Musk ganhou por hora desde quando cofundou sua primeira empresa, há 31 anos.

Via InvestNews

Nubank: CFO saindo, sellside fugindo

Tem uma versão do Nubank que o mercado amava: crescimento acelerado, inadimplência sob controle, expansão internacional como narrativa de longo prazo. Mas essa versão, ultimamente, está em xeque. As ações já acumulam queda de quase 35% no ano, com o valor de mercado recuando para US$ 56,5 bilhões.

O que tá rolando?

→ O gatilho mais recente: a saída do CFO Guilherme Lago, que soma cinco executivos de alto nível indo embora em pouco tempo (COO, CTO, CPO, CCO, e agora o CFO).
→ O histórico: no T1’26 o Nubank reportou provisões de US$ 1,7 bi (+75,7%), a inadimplência de 15-90 dias subiu 0,9%.
→ O movimento: o portfólio de crédito cresceu 40%, para US$ 37,2 bilhões. Ou seja: o banco acelerou o crédito num ambiente macro complicado…

Mas não dá pra negar que a troca de CFO jogou lenha na fogueira. Lago sai no meio de um ciclo de crédito pressionado e sem substituto nomeado para a operação brasileira. O substituto, Rob Livingston, vem da Visa e tem currículo internacional sólido, mas não é especialista no mercado brasileiro.

Isso importa porque o Nubank virou a maior instituição financeira privada do Brasil em número de clientes. Só que são 112 milhões de pessoas expostas ao crédito do banco, então qualquer deterioração na qualidade dos ativos deixa de ser um dado de balanço e vira um risco sistêmico para monitorar.

Por enquanto, as dúvidas seguem maiores do que as certezas.

→ Casas de análises começaram a rever a tese: Citi cortou o preço-alvo de US$ 22 para US$ 18, o BofA rebaixou para venda, derrubando o alvo de US$ 16 para US$ 10. O Santander retirou a empresa do top picks.

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